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25/08/2004 -

El Poder Judicial en huelga desde hace 41 dias

Polícia investiga violência na fazenda

Delegada de Abrantes ouve envolvidos; co-proprietário da Monte Cristo dará depoimento à Corregedoria da Polícia Civil

LETÍCIA BELÉM

CAMAÇARI (DA SUCURSAL) – Violência, destruição, medo e sofrimento foi o saldo do conflito armado ocorrido na última segunda-feira entre as famílias do Movimento Luta pela Terra (MLT) e homens contratados pelo co-proprietário da Fazenda Monte Cristo, distrito de Monte Gordo, município de Camaçari, a 40 km de Salvador, Tadeu Moreira Caldas Vianna Braga, delegado de Rio Real. "Os jagunços jogaram gasolina em tudo e atearam fogo, sem pensar nas vidas das pessoas. Perdi tudo que tinha, fiquei só com a roupa do corpo", dizia desolado o agricultor Pedro Francisco de Souza, de 85 anos.

Na estrada de acesso ao acampamento, um veículo Escort queimado e virado, uma moto e outro veículo totalmente carbonizado. Do lado de fora, no acampamento provisório da beira da estrada e dentro da fazenda, restos dos barracos incendiados, manchas de sangue, 60 pessoas feridas e várias desaparecidas, entre estas, duas crianças, de sete e oito anos. O clima era de tensão e revolta, apesar disto, as famílias insistem em ficar no acampamento. As crianças foram retiradas e algumas mulheres amedrontadas pediram abrigo em casa de parentes.

Mas a maioria permanece no local, carregou os restos dos pertences para a fazenda e reergueu barracos. "Daqui a gente não arreda pé", disse Damião Muniz. A Coelba, logo cedo, religou a luz da fazenda, que havia sido cortada pelos sem-teto na madrugada da reocupação. "Não tenho uma peça de roupa, perdi tudo que tinha, onde bater na porta não encontro emprego, a gente vai viver de quê? Pelo menos com a terra a gente tem como sobreviver. Não podemos desistir de nossa luta ainda mais agora que derramaram sangue de um companheiro", justificou Mariana Santos de Jesus, de 54 anos.

PACíFICO – No começo da manhã, a líder do movimento, Neide Santos, disse ter sido avisada que Tadeu teria entrado pelos fundos da fazenda, vindo pela estrada da Biribeira, em um carro com outros quatros capatazes armados, com o rosto pintado avisando que ia matar os sem-teto. "Ele utiliza o aparato da Polícia Civil, com viatura, pessoal, coletes e armas para praticar a violência contra as famílias. Nós não queremos guerra, somos um movimento pacífico e estamos em paz. Ninguém aqui está armado, mas precisamos da terra para sobreviver. Será possível que teremos de nos armar para defendermos nossas vidas?", desabafou.

Vizinho à fazenda, a casa de um casal de idosos, Raimundo Jesus, 79 anos e Maria da Glória, 59 anos, foi invadida pelos sem-teto, que buscaram refúgio. O filho Romilson Teixeira de Jesus, que mora em Salvador, estava no local preocupado em retirar os pais da casa. "Temos medo que invadam nossa casa novamente. Não quero bagunça aqui, temos que proteger nossa família, que nada tem a ver com o conflito".

Uma guarnição do batalhão de choque de Lauro de Freitas, comandado por Capitão Uzeda, chegou ao local por volta do meio-dia e permaneceu até 17h30, juntamente com uma viatura da 59ª Cia Independente de Polícia Militar de Arembepe, sob o comando do subcomandante Capitão Seixas. À noite, outra viatura da Polícia Militar fez o revezamento para garantir a manutenção da paz. "Faremos um levantamento da situação, mas os sem-teto estão desobedecendo uma ordem judicial", explicou Uzeda.

Alguns estão desaparecidos

Equipes se dividiram para procurar as pessoas que estavam desaparecidas, que se enfiaram pelo mato para fugir dos tiros. As balas passavam de raspão pela gente, dava até para sentir a quentura. Foram muitos tiros, só estamos vivos com a graça de Deus", comenta Manoel Henrique dos Santos, de 72 anos. Elinaldo Pereira dos Santos, de 23 anos, integrante do MLT, foi atingido com quatro tiros nas costas, na perna e na clavícula, além de ter levado golpes de facão na testa, e uma coronhada que estourou seu ouvido esquerdo com a invasão. Outra pessoa que foi baleada nas costas pela manhã durante a reocupação do MLT foi o funcionário de Tadeu, Domingo Bispo dos Santos, que foi encaminhado ao HGE, mas já teve alta, apesar de ainda machucado.

As famílias passaram a noite acordadas em vigília temendo novo ataque, que lembra um filme de terror. No momento em que os jagunços chegaram em massa, por volta de 16h30, já atirando sem piedade, todo mundo começou a correr e a se jogar no chão. Alguns se enfiaram no meio do mato, outros correram para a casa dos vizinhos", conta Marivaldo Silva Nascimento.

Algumas pessoas foram capturadas e mantidas com revólver na boca, como a senhora Francisca Ribeiro, para dizer onde estavam o casal Damião Muniz e Neide Santos. "Deram uma coronhada no rosto dela e ela passou a noite inteira chorando, nervosa".

Titular determina uma perícia no local

Esta foi a terceira vez que eles entram na fazenda, após duas ações de reintegração de posse, expedidas pela juíza da Comarca de Camaçari. O comandante da 59ª Cia, major Leal, informou que oficializou um pedido ao comando da PM para a permanência do Batalhão de Choque no local, de prontidão, caso haja novo ataque do proprietário.

Os 72 pistoleiros contratados pelo proprietário da fazenda estão detidos na 26ª Delegacia de Polícia Civil de Abrantes, também os dois ônibus que os levaram. A delegada titular Jesuína Gonçalves ouviu cerca de 30 deles entre segunda e terça feira e todos confirmaram que foram convocados a destruir o acampamento, sob ordem de Tadeu Braga. Além de destruir os barracos, ateando fogo, eles saquearam tudo que encontravam pela frente, como celulares, relógios, televisores, dinheiro, mantimentos e duas galinhas. Após ouvir todos os detidos, a delegada disse que ouvirá também o delegado Tadeu e pedirá que ele apresente todas as pessoas que estavam com ele no local além dos "jagunços". Os três seguranças que estavam na fazenda já foram ouvidos. Ontem a delegada determinou que fosse feita uma perícia no local e após ouvidas todas as testemunhas, das duas partes, ela encaminhará um relatório ao secretário de segurança pública, general Edson de Sá Rocha. O Ministério Público de Camaçari também reuniu-se ontem com a delegada.

Após a apuração da delegada de Abrantes, Tadeu deverá ser ouvido pela Corregedoria de Polícia Civil. "Estamos aguardando que a delegada ouça todas as pessoas. Se ficar provada a participação dele nos crimes, ele será indiciado em inquérito policial instaurado pela Corregedoria, com tipificação penal e procedimento administrativo", informou a corregedora-chefe, Josélia Reis Santana. "Se ficar comprovado que ele utilizou pertences da SSP, como armas, policiais e coletes da polícia civil, ele será penalizado por isto. Ele não pode resolver problemas particulares com pertences da organização", disse.

A assessoria de imprensa da SSP informou que estão acompanhando o caso, as autoridades policiais já estão no local e a Secretaria formará um painel com todos os fatos que depois será divulgado à imprensa. Hoje, Neide pretende comparecer espontaneamente à 26ª Delegacia para prestar depoimento e buscar os pertences das famílias que foram saqueados.

O delegado Tadeu afirmou que os sem-teto atiraram no peito de Domingos pensando que fosse ele. Com os braços machucados, ele confirmou que levou pessoas para destruir os barracos para retomar a posse que lhe foi concedida pela Justiça. Ele considera um absurdo a fazenda ser invadida pela terceira vez, promovendo uma verdadeira guerra no campo. Ele acusa o líder Damião Muniz de ter várias passagens pela polícia por assalto a bancos e afirma que o Incra já atestou que a fazenda não é passível de reforma agrária.

Os outros herdeiros, as tias Eda e Maria Alice Caldas, reafirmaram preferir que "a fazenda fique com os sem-teto, ele não deixa a própria família entrar na propriedade como se fosse único dono". Elas disseram-se envergonhadas.

 

 

 

 

 

 

Fonte: A Tarde